quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Sinos e ferrovia

 Antes de tudo,peço desculpa aos amigos leitores deste humilde blog pelo tempo em que fiquei sem postar nada,para quem leu a triste postagem anterior sabe o motivo,minha maquete está praticamente parada desde o acontecido,sabe quando parece que o chão nos falta,que as coisas materiais perdem o sentido,pois é assim que eu estava me sentindo,estava não,ainda estou,mas o que aconteceu não tem volta e por mais difícil que seja enfrentar a perda de uma pessoa tão querida,percebi que nada irá reverter o tempo,então em um de meus momentos de reflexão decidi voltar a fazer coisas que já não fazia a muito tempo como tocar guitarra (se Deus permitir remontarei a banda com meus amigos),procurar mais os amigos que ainda me restam (que graças a Deus são muitos) e entre outras coisas,tocar sino.Hã?Isso mesmo,vocês não leram errado,já fui tocador de sino e sineiro (a diferençao do tocador de sino e sineiro é que o segundo além de tocar sino é também o responsável pelos sinos da igreja).São João del-Rei é conhecida como terra da música (por causa de suas orquestras) e terra onde os sinos falam além de chamar a atenção por causa da Maria-fumaça também.Pensei o seguinte "a vida de minha amiga foi ceifada justamente no momento em que ela estava mais feliz,ao lado de que a amava e tudo estava dando certo para ela",pois é,mas eu só saía de casa pra trabalhar e mais nada,de uma hora pra outra minha vida poderá se apagar e eu nem sequer teria aproveitado nada,aí resolvi subir de novo nas torres das igrejas.
 Depois de 12 anos,estava eu novamente subindo as escadas de madeira da Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar em São João del-Rei na ocasião da procissão de Nossa Senhora da Mercês,o pessoal da torre não era o mesmo de quando eu comecei,me senti um vovô perto deles,mas ainda consegui lembrar como se "tirava" um dos repiques mais clássicos,a "terentena",claro que não repiquei como antigamente,afinal depois de 12 anos sem tocar sino  acabei perdendo a prática,mas foi durante esse repique que notei algo interessantíssimo que está ligado a nossa "bitolinha".
  Para os que não conhecem a história dos sinos de São João del-Rei,vou tentar resumir para que entendam.Cada sino de cada igreja da cidade recebeu uma bênção quando foi colocado na torre,com isso recebeu um nome (que pode estar associado a irmandade,nome de santo,etc...) e na Matriz do Pilar os nomes deles são (olhando de frente para a igreja):

Torre esquerda:
a) pela frente: o sino dos Passos (considerado o de som mais bonito da cidade).
b) lateral esquerda: o sino da Boa Morte (um dos mais perigosos da cidade).
c) ao fundo: existe um pequeno sino usado para dobres fúnebres o qual não me lembro o nome.

Torre direita:
a) pela frente: o sino do Santíssimo Sacramento,considerado o mais importante da cidade,além de ser o mais usado em dobres,nele também soam as pancadas do relógio (hora inteira e 3/4 da hora)
b) lateral esquerda: o sino das Almas (pertencente a irmandade de São Miguel e Almas),esse sino também é chamado de Daniel (embora raramente)
c) lateral direita: o sino "Novo" ou da Fábrica (conhecido entre os tocadores de sino como "meiãozinho",nesse sino soam as pancadas do relógio correspondentes a 1/2 e 1/4 da hora.
d) ao fundo: o sino pequeno da Boa Morte,usado em todos os repiques e em alguns dobres fúnebres.

  Não vou entrar em detalhes quanto as modalidades de dobres e repiques,pois não vem ao caso,o que me chamou a atenção enquanto eu repicava o sino da Almas foram 3 letrinhas gravadas no bronze,são elas "RMV",sim a tal Rede Mineira de Viação.A maioria dos sinos tem inscrições gravadas no bronze,algumas são frases em latin,outras são dados do fabricante,homenagens,datas,etc...,no sino das Almas tem "RMV",então eu li toda a frase e ele dizia "REFUNDIDO NO ANO DE 1950 NAS OFICINAS DA RMV DE DIVINÓPOLIS",pois é,até pra isso as oficinas de Divinópolis serviram,dessas oficinas,saíram locomotivas,vagões,etc...,e agora eu descubro que pelo menos um dos sinos das igrejas de São João del-Rei foi refundido lá,parece algo simples mas não é,a refundição é algo muito complicado pois o refundidor poderá danificar o sino para sempre,cada sino tem uma nota musical específica,alguns são mais abafados do que outros e por aí vai...
 As refundições de sinos geralmente são feitas em locais próprios por gente que tem o dom pra isso,um exemplo de refundição mal feita foi a última que fizeram no sino São pedro de Alcântara (conhecido como Popoló) da Igreja São Francisco de Assis em São João del-Rei,esse sino é muito famoso e ficou conhecido como "sino assassino" pois em 1930 ele atingiu um sineiro durante um dobre ferindo-o de morte (mas isso é outra história),ele tinha um som marcante,grave,abafado,de respeito mesmo,aí foi pra refundição e voltou com um som estridente em outro tom e não durou muito,já rachou de novo.
  Como exemplo de refundição muito bem feita temos o sino das Almas,o trabalho que a RMV fez é digno dos melhores mestres,está do mesmo modo de quando voltou de Divinópolis em 1950 e desde então não foi refundido de novo,não dava pra esperar menos das oficinas onde foram fabricadas locomotivas a vapor em plena a II Guerra Mundial.Fico pensando "será que alguém teria registrado em fotografias essa viagem de trem do sino da Almas de São João del-Rei até Divinópolis?".
  Bom,mesmo ainda abalado com o que aconteceu com minha amiga,espero retomar as atividades do blog com carinho como fazia antes,mesmo que seja com histórias curiosas como essa do sino que "passeou de trem".

O sino das Almas em primeiro plano,ao fundo vemos o sino da Boa Morte.Foto de Thiago Lopes de Resende.

Detalhe do sino das Almas onde podemos ler claramente "Refundido no ano de 1950 nas oficinas da RMV em Divinópolis" e logo embaixo entre quatro estrelas está gravado "1827",talvêz seja esse o ano de fabricação desse sino.Foto de Thiago Lopes de Resende.

8 comentários:

  1. parabens pela historia e força amigo!

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  2. Obrigado meu amigo,eu tenho muita coisa pra postar aqui no blog,porém está me faltando ânimo devido a tudo que estou vivendo no momento,mas pessoas assim como você faz a gente ir ganhando força novamente,mas está difícil superar o acontecido,é um vazio que toma conta da gente e nos faz dar mais valor aos amigos e a família.Bom,o negócio é ter fé em Deus (ainda que alguns não acreditem) e seguir em frente.Prometo (e promessa é dívida) que trarei novas postagens e fotos raras pra todos em breve.Mais uma vêz obrigado pela força meu caro Eleandro.

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  3. Amigo Thiago,

    preciosas são as informações que você nos traz sobre os sinos de São João. Obrigado. Sobre as rasteiras que a vida nos dá, nos confortemos lembrando:

    Carlos Drummond de Andrade - "De tudo fica um pouco..."

    Adélia Prado - "Eu sempre sonho que uma coisa gera / nunca nada está morto / o que parece sem vida, aduba / o que parece estático, espera.

    http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/

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  4. Obrigado Antônio,os sinos em nossa cidade são muito mais do que objetos de bronze pra fazer barulho.O tempo cura algumas feridas e abre outras,quando perdemos pessoas tão boas (como minha amiga Verônica) nos sentimos sós,a ferida no coração vai fechar com o tempo,porém a cicatriz vai ficar,isso é o que acontece por viver cercado de pessoas boas.Abraço e até a próxima (se Deus permitir)!

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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  6. Nossa, você publicou a história do sino mesmo! Minha avó me contou uma vez que em 1915 um sineiro caiu da torre da igreja de S. Francisco, após ter sido empurrado pelo sino que ele mesmo tinha tocado... Mas eu queria te fazer uma pergunta que não tive a oportunidade de fazer pessoalmente. Sabe aqueles vagões de aço carbono da RFFSA? Já houve a utilização daqueles carros na malha da SR-3, atualmente conhecida como ferrovia do aço?

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  7. Que bom que tenha gostado da história do sino,quanto a sua pergunta,ela é um tanto curiosa,não sei te dizer se os carros de aço carbono chegaram a operar com frequência na SR-3 (Ferrovia do Aço) mas quando morei em Coroas (nome popular de Coronel Xavier Chaves - MG),certa vêz eu fui "nadar" num riacho e os trens passavam no viaduto a todo instante,lembro perfeitamente que nesse dia havia um comboio parado no viaduto (devia ser um trem de serviço),na composição havia um ou dois carros de aço carbono e um carro restaurante também de aço carbono,foi a única vêz que vi esses carros na SR-3,foi por volta de 1991,não tinha como me enganar,aquela pintura azul era inconfundível.Bons tempos aqueles...

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  8. me parece pelo que já vi em fotos existem 2 ou 3 carros em pouso alegre numa ferrovia muito duvidosa até mesmo um locomotiva a vapor pronta para rodar.

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